Não foi com
um susto que Gruschunka, Grunscha em seu próprio coração,
finalmente percebeu o vulto do homem à sua
frente. Silenciosa, aproximou-se do rosto petrificado de
Dimitri e segurou a única vela a poucos centímetros
de seu nariz.
- Ahr, Dimitri! Como entrou aqui.. Por
um segundo temi que... Mas, deixe, não importa. - e sorriu
largamente. - Você pode bem servir... Precisava mesmo de companhia.
É às vezes solitário, você sabe...
Minha música é minha companhia. - apontando para o exagerado
aparelho de som que tremia os alicerces da casa. Dimitri ergueu-se,
não sem dificuldade, com cuidado para não estragar o tapete e bateu
o pó que estranhamente já repousava
sobre as pernas de sua calça. Os lábios se mexeram, mas nenhuma voz
podia ser ouvida acima dos ruídos nervosos das caixas acústicas.
- Não importa. - sorriu Grunscha. - O
que importa é que você está aqui. O que... Não nos entendemos,
mas, afinal, não fomos feitos para ser
entendidos, mas sim para ser amados, dizem.
Este é o começo de uma linda amizade. Já viu esse filme... Mas o
que estou dizendo... Onde estão os meus modos... Quer uma xícara de
chá... Estou tão nervosa. Não é sempre que recebo visitas...
Ainda não sei como você entrou... Mas, que importa... Você está
aqui, isto importa. - Grunscha deixou-se cair numa
poltrona surrada de pano e, nesse momento, uma neblina de pó
ergueu-se cobrindo-lhe a visão. - Sim, eu
sei. Faz um bom tempo... Mas, que importa. Observe minhas estantes,
quantas coisas juntei ao longo dos anos. Diria que minha coleção é
completa. Você diria até mesmo que sou a garota que tem... tudo. -
riu sozinha, limpando as mãos na saia.
O chão, as paredes,
tudo vibrava com os graves da música. O grande lustre de velas
arranhava o ar como um grande machado, conforme era empurrado pelas
vibrações para um lado e para o outro, um lado e outro. Camadas de
pó e teias de aranha dançavam sobre todas as superfícies. Protegendo
ambas as orelhas com as mãos, o jovem Dimitri saltou ao canto
direito da sala e com um rápido movimento desligou a fonte da
tempestade de decibéis. Mas, mal a música cessou, logo percebeu que
os ruídos vinham também de outros lugares. A sombra de melodia foi
substituída por meras batidas, tão fortes quanto assustadoras, à
porta e às janelas. Os alicerces continuavam a estremecer. A
sensação era a de que uma família de dinossauros espancavam a casa
com a cabeça, como se esta fosse um jipe ocupado por crianças
medrosas.
- Não! - gritou Grunscha em desespero
e jogou-se ao chão dramaticamente. - Que
barulho terrível, insuportável, odioso. - Levantou-se
e com olhos aterrorizados voltou a apertar o botão no
aparelho, fazendo com que a música ritmada
retornasse. Suspirou aliviada quando a bateria
eletrônica e os sons de teclado retornaram - Cuidado, Dimitri
Karamelo, - sorriu tímida - outros já
foram expulsos daqui por muito menos.
Dimitri suspirou
e, com pressa, novamente desligou a música
que abafava os sons externos. Pedaços de reboco
caíram do teto com o espancamento. A porta, outrora aparentemente
segura, agora mais parecia ser de papel. Dimitri não compreendia por
que batiam na porta tão insistentemente.
- De que se trata... Por que nao os deixa
entrar... Deve ser importante... - sugeriu o
intruso, inocentemente. - TUM, TUM, TUM...
- Não, são monstros! São terriveis!
Bullies é o que são! Valentões, covardes! Não, não - chorosa,
Grunscha lançou todo o seu peso contra a
porta tentando mantê-la firme. - Por que
me faz isso... Oras, não importa. Você não sabe
o meu esforço, a minha constante vigília para mantê-los fora.
São insistentes, pois querem me humilhar,
confundir. Destroem tudo o que vêem. São
como crianças malcriadas, exceto que extremamente fortes.
Não sei se por ignorância ou curiosidade, certa vez deixei-os entrar. Naquele tempo ainda eram
pequenos e poucos. Em pouco tempo que estiveram aqui, você precisa
ver o que este lugar se tornou! Trocaram as etiquetas das
minhas pastas, espalharam minhas anotações pelo chão, jogaram
livros de dogmas no lixo, no lixo, Dimitri! Você entende então, é
claro... E o horror, o horror! Diante dos meus
olhos, foram se multiplicando. Não sei por onde vieram ou como souberam
que estavamos aqui, mas se tornaram demais para uma única casa
sustentar. Pisotearam e comeram tudo, tudo!, até mesmo o meu antigo
sofá. Ainda não sei como os consegui expulsar, mas consegui. E
agora, cá estou. Viva, mal sei dizer como. Oh, esse barulho
terrível! Minha música, de alguma forma, me faz esquecê-lo. Faz-me
sentir segura. Oh, Dimitri. Se entrarem, morrerei, sei que morrerei.
Levarão tudo, esmagarão o que houver no caminho, como uma
locomotiva sem fim, sem destino, sempre em frente, rangendo,
mastigando, esbaforando fumaça. - TUM, TUM, TUM à porta.
- Mas que criaturas podem ser assim tão terríveis, Grunscha... - TUM, TUM, TUM....
- Oras, homem.
São... - TUM, TUM, TUM. Engoliu seco. - São os terríveis pontos de
interrogação. Tornam-se extremamente ávidos e
irritadiços, pois não há respostas suficiente para
todos! São uns arruaceiros, uns
bandidos, monstros, isso que são! - TUM, TUM, TUM....
- Mas, Grunscha, não
é possível para um ser humano viver assim. Prisioneira em
sua própria casa! Cercada de fotos de lugares que nunca foi, cheia
de livros com relatos de vidas que nunca viveu! Não, Grunscha, há
um mundo lá fora. Não pode viver assim.
- Mas, Dimitri! Eles são tantos!
Minha segurança, minha ordem, minha
rotina... tudo desaparece quando os deixo entrar. Escute o barulho
que fazem, veja o esforço diário com que os mantenho fora. Meus
romances, meus programas, o ruído... só isso me ajuda a
esquecê-los! - TUM, TUM, TUM - E a
chacota dos pontos de interrogação fazem com que eu duvide,
imagine!, até mesmo do meu gosto. Fazem minha vida parecer tão
ridícula quanto patética e inútil. Não, Dimitri! Minha vida é do
lado de cá, talvez numa sala um tanto escura, mas é uma vida em paz
e assim sou feliz!- TUMTUMTUMTUMTUMTUMTAH, a porta
pareceu se dobrar ao meio com a força das batidas.
- Grunscha, você precisa enfrentá-los.
Uma vida aprisionada não é vida!
- Eles são mais fortes do que eu, mais
fortes, Dimitri! Serei publicamente humilhada. Serei espancada,
derrotada. Perderei tudo! Eles não deixarão nada, nada dos tesouros
que passei tanto tempo ajuntando e organizando.
- Grunscha, eles não
irão embora. Você pode afogar o seu som,
você pode tentar esquecê-los, mas sempre estarão lá. Se
não pode vencê-los, junte-se a eles! Faça dos pontos de
interrogação seus melhores amigos. Deixe-os redecorar a casa,
alimentar-se dos seus pensamentos, iluminar estes cantos escuros e,
quem sabe, encontrar abandonadas entre as teias de aranha e debaixo do
pó as respostas que necessitam.
De repente, o rosto de
Gruschunka pareceu acinzentar e a casa tornou-se morbidamente fria. O
barulho cessou por um momento, causando um silêncio lento e surreal
como uma folha de papel que dança no ar até finalmente pousar no
chão. De repente, um rugido ensurdecedor balançou a casa. O rosto
de Dimitri empalideceu.
- Não somos fortes o
suficiente, agora vejo... Morreremos, agora sei... - disse,
engasgando. Mais um pouco de reboco caiu do teto e uma lâmpada
espontaneamente acendeu-se acima da cabeça do rapaz. - Sei que é
idiota, mas poderíamos pedir por proteção a ele. - TA! TA! TA! -
Morreremos, eu sei. Morreremos, a não ser que... Não somos fortes, Grunscha! Ele é! Precisamos telefonar para ele, pedir que venha imediatamente.
Grunscha fez uma careta e zombou tristemente. - Venha imediatamente... Ele já mora aqui há
anos e nada fez a respeito. - TA! TA!
O choque na expressão de
Dimitri seria cômico, se não fosse tão embaraçoso. - Ele mora
aqui! Mas não o vi em momento algum. Então, é verdade... Mas, como... Ouvi falar que ele é tão
grande, que não há quartos grande o bastante para comportá-lo e
tão forte que nem mesmo correntes de ferro o aprisionam. Dizem que o
mero som da sua voz atemoriza até mesmo animais selvagens! -
gritou, apertando os olhos ante a escuridão. TA! TA! TA! TA!
Lágrimas rolaram sobre o
rosto de Grunscha, enquanto tentava inutilmente empurrar a poltrona em
direção à porta. - Eu não o permito entrar neste cômodo. Envergonha-me a sujeira. Tanto pó acumulado, tanto entulho. Com certeza está melhor
ajustado no quarto de visitas. Lá é sempre iluminado e limpo. A
melhor e mais nova mobília vai sempre para lá. E o mais importante, naquele quarto há silêncio e paz. As portas não deixam passar um único
ruído e as paredes são tão fortes que nem mesmo os monstros lá de
fora as abalariam. Não quis que ele precisasse conviver com esse
barulho horrível, com o mofo e essa falta de ar. - Soluçando o
choro e limpando com as costas da mão a pasta de suor e pó na
testa, Grunscha freiou o empurrão no móvel e quase desmaiou ao ver
a porta se partir ao meio e dezenas, não, centenas!, de criaturas
cinzentas e asquerosas saltarem adentro. Como rãs famintas, subiram
pelas paredes, pelo teto, comendo e pisoteando tudo à frente.
Madeira, plástico, pedra, papel ou metal. Nada era resistente ou
indigesto o bastante para os psicóticos Questionamentos.
- Deus, ajude! - gritou,
quando estava prestes a ser esmagada por um ponto de interrogação
que mais parecia um troll da
Terra-Média. Neste momento, uma cegueira branca e luminosa
cobriu todos os presentes e conforme as pupilas se ajustaram,
percebeu-se que a porta do quarto de visitas havia sido arrancada e
lançada metros de distância e diante do batente se encontrava ele.
Grunscha mal o reconheceu. Os monstros, paralisados, tinham
proporções de baratas diante dele. E conforme ele os olhava, um a
um, muitos simplesmente esvaneceram como miragens nebulosas, outros
transformaram-se como borboletas, corados e vistosos. Ele ergueu as
mãos, curiosamente marcadas com cicatrizes circulares, e apontou
para a destruição. Os pontos de interrogação que ainda viviam,
como bons mordomos, começaram a arrumar e aprimorar a sala.
Arrancaram as velhas cortinas, estilhaçaram as janelas
desnecessariamente espessas, bateram o pó dos tecidos e
recatalogaram tudo que contivesse qualquer tipo de informação. A
prataria foi polida, o chão encerado, os livros e móveis renovados
e tanto o excesso quanto o que estava estragado foram, de fato,
jogados fora. Grunscha e Dimitri apenas encararam boquiabertos e
admirados. Tudo reluzia. Ao mesmo tempo, ambos olharam para ele um
tanto constrangidos, um tanto maravilhados. Ele apenas sorriu e
ergueu os ombros como que dizendo factualmente “é isso que eu
faço, oras”.
Nos
anos seguintes,
Dimitri passou a
visitar assiduamente, já que, a partir de então,
a porta estava sempre aberta. Eventualmente, casaram-se e foram morar
no antigo quarto de visitas. Já a administração da casa toda
passou para o Protetor. O local virou ponto de encontro para
viajantes e familiares e crianças e velhinhos. O som mais constante
era de risadas, palmas e música ao vivo. A luz entrava por todos os
lados, saía dele e retornava pelas grandes janelas abertas, junto
com a brisa fresca de um oceano aberto.Todos os pontos de
interrogação, assim como os de exclamação, os finais, os que
vinham acompanhados com vírgulas e até mesmo a pequena gang
de moleques que só aceitavam ser chamados de “reticências”
passaram a ser empregados exemplares naquela casa. Em agradecimento
pelo trabalho honesto, escreviam poemas e contos para serem lidos na
sala, em frente à lareira, em dias de inverno. Pode imaginar um
final mais feliz?"
Mima Pumpkin
"Não posso dizer que
nunca tenho dúvidas, nem posso desejar não tê-las enquanto nele
não tiver o coração do bem como meu próprio coração. Pois a
dúvida é o martelo que estilhaça as janelas embaçadas por
fantasias humanas e deixa entrar a luz pura. Mas eu afirmo que toda a
minha esperança, toda a minha alegria e toda a minha força estão
no Senhor Cristo e em seu Pai; que todas as minhas teorias de vida e
crescimento estão enraizadas Nele; que Sua verdade vai pouco a pouco
esclarecendo todos os mistérios deste mundo [...] A Ele pertenço,
coração, corpo e alma, e Ele pode fazer de mim o que lhe aprouver -
não, melhor - eu Lhe suplico para fazer de mim o que Lhe aprouver:
pois nisso está meu único bem-estar e liberdade." George
Macdonald
Welcome Home (tradução)
Shaun Groves
"Bem Vindo à Sua
Casa"
Bem vindo ao meu coração
Que está coberto por um
mato de orgulho
Que cresceu pra esconder a
bagunça que eu fiz
Dentro de mim, vem
redecorar, Senhor
Abre a porta que range
E anda pelo chão
empoeirado
Esfrega as manchas de
culpa
Até que não sobre mais
pecado ou vergonha
Espalha Seu amor pelas
paredes
E ocupe as salas vazias
Até que o homem que eu
era desapareça
Não sobrem mais portas
bloqueadas
Vem dentro deste meu
coração
Que não é meu
Sinta-se em casa
Vem e toma este coração
E torna somente Teu
Bem vindo à Sua casa
Senta, puxa uma cadeira
Me perdoa a bagunça
E os trastes empilhados do
chão ao teto
Que se amontoaram na minha
busca por respostas
Cada armário cheio de
entulhos
Desordens que ainda nem
foram descobertas
Não tenho mais controle,
eu entendo
Não tenho condições de
fazer o que o Senhor faz, neste lugar
Peguei o espaço que o
Senhor pôs em mim
Redecorei com tons de
ganância
E me certifiquei de
trancar todas as portas
Bloquear todas as janelas,
e ainda assim o Senhor
batia
Toma-me, faz de mim
Aquilo que queres que eu
seja
É tudo que peço, tudo
que peço
1 comentários:
Oi! Vim parar aqui por uma indicação lá do blog da Brenda Nepomuceno. Simplesmente adorável esse seu cantinho, cheio de coisas legais.
Amei esse texto. Eu senti as palavras falando ao meu espírito. Parabéns pelo dom que O Senhor lhe concedeu e que você usou de forma tão incrível - especialmente nesses textos do mês de novembro.
Que o Senhor Jesus continue te abençoando. Até mais!
P.S.: É tão simples gritar "Deus, ajude!". Me pergunto porque às vezes não enxergamos isso. Me pergunto porque não sabemos recepcioná-lo no nosso coração como ele merece.
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